Thrash com H

THE SONGS REMAIN THE SAME?

sexta-feira, 31 julho, 2020 por Txuca

por märZ

Um assunto que talvez já tenha sido brevemente pincelado por aqui: machismo e misoginia nas letras de rock, hard e metal em geral.

Minha reflexão que culminou na idéia de abordar o tema começou com um cd do Raul Seixas que comprei semana passada, “Abre-te Sésamo” (1980), e mais especificamente, a canção “Rock das ‘Aranha'”. Minha namorada, bem mais jovem do que eu, estava aqui em casa e coloquei o cd pra tocar; quando chegou na referida canção, ela se virou pra mim com olhar grave e mandou:

“é sério, isso?”

Todo homem já recebeu esse olhar congelante de uma namorada, parceira, esposa e sabe o que vem em seguida: tentativas patéticas de explicar o quase inexplicável, atropelando palavras e conceitos.

***

O fato é que, se eu ouvia e cantava essa música do Raul a plenos pulmões e com um sorriso na cara aos 19, hoje aos 50 fico com vergonha alheia por ele, e ainda mais das pessoas à minha volta. O mundo mudou? Eu mudei? Estou velho, careta, me transformei em um dos coroas de quem, quando jovem, adorava tripudiar e criticar?

Complementando, ontem inventei de ouvir o álbum de estréia dos Raimundos, que não escutava há uns bons 10 anos. O sentimento foi parecido ao “episódio Raul“, ainda que estivesse sozinho em casa com meus gatos. Novamente: mudou, mudei?

Me lembrei então de um artigo de revista gringa com Robert Plant, à época do lançamento da versão remasterizada tripla do ao vivo “The Song Remains the Same”, onde Plant descreve ter pedido ao produtor que retirasse certos trechos de diálogos seus com a platéia, e até mesmo partes das canções onde o teor de suas palavras tinha cunho misógino, por hoje se sentir envergonhado por tê-los dito. O produtor então explicou que seria um erro fazê-lo, pois o público do Zeppelin está bem familiarizado com eles e espera ouvi-los ao adquirir o material. Apagá-los agora seria trapaça e geraria mais controvérsia do que o contrário.

E assim ficou.

E o que não dizer de algumas (muitas?) letras de artistas com Bon Jovi, Whitesnake (as letras de Coverdale costumam ser embaraçosas), Rolling Stones, os óbvios Mötley Crüe e Poison, e tantos outros que não chegaram a atingir o mainstream?

O raciocínio que estou querendo gerar é: está tudo realmente mudando ou continua o mesmo, e nós é que adquirimos um ponto de vista diferente? Ou nada disso?

11 respostas

  1. Marco Txuca

    O post é ótimo e republiquei com gosto, a despeito de haver descrito pela primeira vez – e espero q primeira e última – um certo nome de banda citado ahahah

    Acho q somos privilegiados por estarmos em momento em q as mentalidades, se ñ mudando, estão ansiando por mudanças. O q ñ acontece desde os anos 60.

    Ñ acho q o märZ ou eu ou quem concorde com a vergonha alheia (outro dia ouvi “Selim” no carro com o vidro fechado) estejamos virando reaças. Até pq um dos critérios nessa coisa toda é vermos a reação dos reaças.

    Ninguém aqui está como os bostominions, reaçabangers, metaleiros “isentões” de direita, evanjegues ou youtubbers (impressão ou só existe youtubber de direita?), reagindo espumando e culpando a DITADURA DO POLITICAMENTE CORRETO ou o ESQUERDISMO FEMINAZI disso tudo.

    Se alguém por aqui estiver nessa pegada, peço pra q por favor SUMA.

    Estamos reavaliando conceitos, o q causa estranheza e dúvida conosco próprios. Ñ deixamos de curtir os sons, como os tr00 q venderam os discos velhos do Kreator na Galeria quando saiu o “Renewal” (eu vi isso) ou q abandonaram o Metallica (e toda a discografia antiga) quando do ‘black album’. Isso é rigidez, estupidez, autoritarismo.

    Ñ vejo o amigo ou ninguém por aqui (aguardo comentários) mandando aqueles típicos “ah, mas no meu tempo de adolescente era melhor”, “geração mimimi de agora”, “pessoal politicamente correto está estragando tudo”. Como mandou um certo youtubber na internet q vez ou outra reenvio pra amigos, o Apóstolo Arnaldo. Esse tipo de comentário a mim demonstra gente envelhecendo mal. Se tornando aquele tiozão escroto q a gente detestava, e q só “Beatles é q é bom” ou q “Jimi Hendrix é q era guitarrista, ñ esses Satriani da vida”, ou aquela tiazona hippie tardia q a herpes ataca se fica 3 dias sem ouvir a “Janis”…

    O cara q manda “ah, mas antigamente eu catava qualquer mina na balada” é o cara q ama Velhas Virgens e curte Kiss e Motörhead pelas razões erradas. A de q, supostamente, Simmons e Lemmy “comeram mulher pra caralho”.

    Falava com o märZ outro dia ainda outra coisa, outro aspecto disso: pornografia na internet. Devo ser o único q lê comentário de vídeo pornô (ahah), mas em visitas recentes a certos sites tenho visto mulherada descendo o cacete (sim!) em vídeos q são praticamente estupros, nos quais a mulherada é humilhada em troca dos fodões lá poderem gozar. E se esse tipo de comentário acontece nesse tipo de lugar, eu quero mais é q essa mudança chegue logo para poder usufruir. Com a namorada, com amigos, com gente bacana (ñ é a “gente de bem e de Deus e de família”) por aqui e no out-line.

    _____

    * Adendo curioso a “Selim”: no documentário “Banguela”, o Miranda conta q o Rodolfo ñ queria gravar a música. Estava desconfortável, e dá pra entender (haja visto a vida reaça adotada), a ponto do Miranda ter ameaçado chamar outra pessoa (Nando Reis? Quem mais?) pra gravar.

    Virou hit. Miranda estava certo, mas Rodolfo tb, embora o encaminhamento do segundo tenha sido ainda mais escroto.

  2. Rodrigo

    Sobre os Raimundos, não “cancelo” o que a banda fez. Os discos dos anos 90 são excelentes, e até hoje os escuto com um sorriso no rosto. Pra mim foi a banda mais legal daquela época. Não consegui gostar mais depois da saída do Rodolfo e tô nem aí para o que as pessoas físicas viraram.

  3. Jessiê

    Eu sou da pior geração do heavy metal a oitentista, basicamente thrash metal. Mulher, qualquer uma, excetuando mães e irmãs, às vezes, eram tudo “puta”. Na verdade “bitch” na mais ou menos gíria. Uma música dessa galera era “Dirty Bitch” do MX em inglês sofrível. Não se admitiam homossexuais na cena. Se aparecesse era na base da porrada mesmo. Uma escrotidão sem fim. São esses caras, muitos foram meus amigos, que hoje são esses motoqueiros e assemelhados acima de 40 da pior espécie de fascista.

    Em contrapartida eu convivia com a galera da cena punk/HC por causa das ideias, não da maioria do som, ia em reuniões anarco-punk (era o único cabeludo) que também tinham skatistas e universitários tanto de humanas ligados a UJS quanto uma galera de arquitetura.

    Essa parte da cena tinha muita mulher, homossexual e a 30 anos atrás debatíamos sobre feminismo, misoginia, fascismo e todo um idealismo libertário. Era muito panfletário e muito interessante mas eu achava muito distópico o medo que a galera tinha do fascismo. Quem diria!

    No meu zine tinha muito material thrash e death e muita coisa punk, materiais escritos por essas meninas e inclusive artigos sobre a universal.

    Mas também existia outra cena HC que essa galera odiava que era o tal “For Fun”, o punk rock tralalá que fez muito sucesso dentro do underground primeiro antes de existir Raimundos e assemelhados.

    Nessa época o DFC tentou por duas fazer shows e não conseguiu porque a galera apedrejou e ameaçou quem fosse. Eu tinha debates enormes se este tipo de ação não era fascismo da parte de quem combatia. Hoje estamos às voltas exatamente com isso uma decisão do STF bloqueando perfis.

    Até que ponto combater ideias adversas nos permite calar quem as tem? Pode se virar contra nós, inclusive é um futuro bem próximo se nada ocorrer.

    Voltando na galera thrash dos 80 eles achavam normal encher mina de pinga, aquelas que se aventuravam no meio, para dois ou três “comer”. Eu já entendia que isso era errado. Não encarava como estupro, mas entendia como errado. Mas hoje é claro que é estupro de incapaz.

  4. Danny

    Acho que as duas coisas: o mundo está mudando (bem devagar, mas pra melhor, neste sentido), e as pessoas estão mudando também.

    Essa ideia de cancelamento está sendo usada sem parcimônia (rs), acredito que as pessoas podem ter errado no passado, dependendo do caso se elas mudam a forma de agir e pensar, se desculpam publicamente, ok.

    Porque nós também falávamos/apoiávamos coisas que hoje dá até vergonha, então se nós evoluímos, pq os artistas não podem?

    Mas realmente, tem muita coisa que antigamente era super legal de ouvir e a gente “não ligava” pras letras, e hoje dá vergonha alheia e nos incomoda.

    Eu que sou muito fã de Guns, tenho vergonha da letra de Used to Love Her, It’s So Easy (apesar de o Duff já ter declarado que foi um mal entendido, que as letras eram uma crítica a isso, enfim…), One in a million.

    O Whitesnake é um dos piores casos pq tá nessa até hoje.. se pegar o cd deles do ano passado ainda carrega o machismo de sempre.

    Mas enfim, eu sigo ouvindo alguns, outros não, mas não deixaria de ouvir algo novo da banda pelo passado ‘obscuro’.

  5. märZ

    Vi um trecho de entrevista do Coverdale ano passado no youtube, para divulgar o novo album, e um membro da audiência perguntou o motivo de tantas letras com o tema “love” e se ele não se entediava de escrever sempre sobre a mesma coisa, ao que respondeu que se considerava um “romântico incurável”.

    Suas letras dizem, a grosso modo, “vem cá gostosa tô te querendo”. Não sei se chamaria isso de romantismo. Mas adoro o som da banda e Coverdale nos bons tempos do Whitesnake era foda como vocalista..

  6. Leo

    Eu não sou da área do direito, mas acho que a pergunta principal do märZ diz respeito à origem das leis: os valores sociais mudam e vão se consolidando a ponto de se positivarem, se tornarem lei.

    Além disso, políticas públicas tb podem ter essa função de promover valores públicos. E acho que viemos (não só no Brasil) de uma década e pouco desse tipo de ação. Isso promove mudanças na sociedade como corpo e nos indivíduos (e promove tb reações… inclusive, origem do termo recionário. Rs).

    Em suma, acho que é contextual e que ter um novo contexto faz com que nos reposicionemos.

    O que tenho ressalvas é com quem descontextualiza os discursos de seus tempos e, por analisar esses discursos do passado com valores atuais, tenta desvirtuar (tirar as virtudes de) algo.

    Desviando da questão de gênero, por exemplo, cito um fato que, pra mim, dialoga bem com isso (e que é trágico, pq diz respeito a uma das bandas que mais gosto): quando o Phil Anselmo fez aquela saudação nazista, passei a ouvir muito menos Pantera do que antes… E isso não tem nada a ver com as letras, músicas, ou posturas da época. Tem a ver com a decepção com um membro já fora da banda que, pra mim, deu uma boa manchada na trajetória.

    Acho que sabemos bem os limites da honestidade entre aquilo que ouvimos e nossos valores. Marcão me corrija como leitor do velho Freud se estiver errado, mas o “mal-estar” é bem “sintomático”.

  7. bonna, generval v.

    Eu adoro o primeiro disco do Raimundos mas me pergunto se fosse lançado hoje com aquela mesma formação e sem que eu soubesse de qualquer informação da banda se eu teria o mesmo apreço ao disco quando analisasse o conteúdo das letras.

  8. André

    Bonna: é que, na época, não sabíamos julgar bandas como Raimundos. Ou nem nos importávamos com isso. Posso estar errado, mas, é o que parece.

    É o mesmo caso de Rock das Aranhas. O Marz, pelo que entendi, era um menino púbere quando essa música foi lançada e não soube julgá-la para além do gosto musical. O que não é o caso hoje.

    Não sei se alguém aqui viu na página do Wikimetal, uma matéria sobre uma entrevista do David Bowie de 1983 em que ele questionava a ausência de artistas negros na MTV. A resposta do VJ, todo atrapalhado, é sintomática. Racismo escancarado. Pra quem quiser assistir: https://www.youtube.com/watch?v=XZGiVzIr8Qg&t=17s

    O que me leva a outro questionamento. Todo essa postura supostamente pró pautas progressivas de artistas é genuína ou marketing? Uma coisa é postar esse ativismo de shopping no twitter ou instagram. Ir numa emissora como a globo e botar um coxinha como Zeca Camargo contra a parede é outra.

    Muito se discute a misoginia e homofobia no rock e, ao mesmo tempo, é feito vista grossa para outros estilos como o rap, que é misógino e homofóbico por excelência. Mas, não vejo tanta problematização em cima disso. Só acho. Mano Brown já fez mea culpa sobre ter escrito Mulheres Vulgares, o que é válido.

    Enfim, é um assunto que rende. Segue o tópico.

  9. bonna, generval v.

    O assunto rende… foi muito oportuno o texto do Marz. Ele conheceu o “rock das aranha” com 19 e eu os Raimundos com 14. Terá sido apenas a idade que nos fez julgar ‘inocentes’ as letras? Claro que a maturidade tem a ver, mas o contexto dos períodos em que estas obras foram lançadas também fazem todo sentido.

    Além do Mano Brown, outro que pediu desculpas e chegou a refazer uma letra foi o Criolo, artista que acho deveras superestimado tendo fans famosos fora do gueto como Chico e Milton.

  10. Marco Txuca

    Pegando a deixa do Criolo, q vejo uma mulherada toda q adora e acha o cara lindo (e têm todo o direito), e q tb acho superestimado (ñ tem voz, sequer pra gravar Tim Maia), tem no YouTube um “cala a boca” q ele dá no Clemente, quando se aprosentou no “Estúdio Showlivre”.

    Clemente (justo ele, o único negão do rock no Brasil) manda um “ó, o espectador aqui tá falando q te acha parecido com o Freddie Mercury”, rindo, naquela “homofobia da boca pra fora”. Putz.

    O mesmo Clemente q deu bola fora com a Julia Barth (Replicantes), e agora ñ lembro como; mas tem no YouTube pra ver. E q veio com gracinhas homofóbicas “da boca pra fora” quando de entrevistar o Guilherme Isnard (Zero). Gracinhas essas nitidamente duma época oitentista em q se conheceram e zoavam desse modo.

    E esse é um ponto.

    ***

    Outro dia postei por aqui, chocado, o vídeo de “Bete Morreu”, do Camisa de Vênus, q ñ entendo como ñ está censurado na internet. A letra era zoeira, coisa bem infantil mesmo (e pesada!), mas o clipe, literal, é dum mau gosto q ñ é de hoje.

    Ao mesmo tempo, e por outro lado, pra falar a verrdade e diga-se de passage, lembro duma vez q tive uma crise de riso duns 5 minutos no finado Mappin quando me caiu a ficha do verso em “Silvia” – “todo homem q sabe o q quer, pega o pau pra bater na mulher” – q ñ era machismo 100%, mas zoeira com o Roberto Carlos. De “Cama e Mesa” (“todo homem q sabe o q quer, sabe dar e querer da mulher”) ahahah

    Além disso, creio q todos aqui já ouviram “Viva”, aquele disco ao vivo do Camisa mega-censurado em 1986 (8 das 10 músicas) e q tem um discurso memorável do Marcelo Nova pelo Dia Internacional da Mulher. Q ñ foi um discurso sexista, pelo contrário: foi pra defender a “acusação de q o Camisa de Vênus é uma banda machista”.

    Nova manda, na lata: “o Camisa de Vênus é a única banda de rock heterossexual do planeta” ahah Mas na versão em cd limaram esse discurso. A mim, equivocadamente.

    ***

    Quanto às letras do Raimundos, Manowar e até do D.F.C. inicial (“mulher é pra chupar, mulher é pra dar, mulher é ñ sei o quê…”), tem o lado de terem sido provavelmente escritas tb por molecada virjona, q alimentava uma certa bronca de ñ conhecer mulher.

    Um certo sexismo babaca, mas adolescente. E q muda completamente quando (exceção ao fã de Manowar) o sujeito conhece uma garota e passa a entender (exceto fã de Manowar) muita coisa.

    O artista se modificar, contanto q ñ seja tipo o Catalau (Golpe de Estado), readaptando músicas da banda pra versões de pregação, me parece válido. Maduro.

    E acho q é um pouco disso o q estamos aqui falando. A diferença é q nós e o mundo estamos sintônicos nalguma mudança.

    Eu só queria saber como é q a mulherada sempre agüentou calada ou indiferente esse tipo de coisa. Ou nunca reparou nas letras do Whitesnake ou do Mötley Crüe, como tb pouca gente nunca se ligou nas letras de “Bohemian Rhapsody” e de “Every Breath You Take”, do Police.

    Segue o papo. Q é pra isso q esse blog foi fundado.

    _

    PS – Danny: a “Used to Love Her” ñ foi uma zoeira proposital? Lembro duma estória de q o Axl fez quando uma cachorrinha dele morreu. Ou teria sido uma desculpa pra fugir das feminazis petralhas ditadoras do politicamente correto maconhistas uspianas dos EUA?

  11. André

    Na verdade, é sobre uma cachorra que ele matou. O Axl, no mesmo disco, cometeu crime de racismo, homofobia e violência animal.

    Por falar em Guns, o Slash deu uma bola fora há não muito tempo que foi foda. Sobre ter uma vocalista na banda dele (não sei se no Velvet Revolver ou na solo)não rola, afinal, ele é um machão e iria querer comer a mulher. Modo tiozão total.

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