ARE YOU MORBID?
(ou “Deve Ser Bom Ser Carlos Vândalo na Suiça”) – Part I
por märZ
Há anos eu tentava adquirir esse livro (spoiler: ainda não consegui). Fiz busca na internet, amigos que viajaram ao exterior procuraram nos EUA, Canadá, Suécia, Áustria… e nada.
Objeto raro e fora de catálogo há uns 25 anos, anunciado nos ebays da vida por ate 500 dólares. Nem pra baixar eu encontrava, talvez por ter sido editado em tempos pré-Kindle. Até que me indicaram um site chamado The Internet Archive que mantém em seus cofres milhares de arquivos de vídeo, áudio e imagem. E lá encontrei uma versão do livro, cada página fotografada e arquivada em seqüência. E assim iniciei a leitura. Segue um resumão:

Thomas Gabriel Fischer sempre foi um garoto rebelde e cheio de criatividade, se interessando por rock and roll ainda criança ao ouvir um disco da Suzi Quatro na casa de um amigo de escola. Logo veio a NWOBHM e as duas bandas que fizeram sua mente explodir: Motorhead e Venom. E foi tendo a segunda como modelo que montou sua primeira banda, Hammerhead – embrião do que viria a ser o Hellhammer. Sem saber tocar quase nada, sem uma cena local, sem apoio ou equipamento, conseguiu gravar uma demo com amigos em um gravador portátil de 4 canais e enviou para varias gravadoras da Europa e EUA. Somente uma respondeu: Noise Records da Alemanha, tocada pelo visionário Karl-Ulrich Walterbach, que na época estava dando seus primeiros passos e recrutando bandas locais para uma coletânea.
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3 demos na bagagem e sai o EP “Apocalyptic Raids”, sucesso entre a molecada no underground e piada entre críticos de música de revistas especializadas. Alguns chegaram a se empenhar pessoalmente para que a banda fosse massacrada impiedosamente sempre que mencionada, e nunca tocasse em suas cidades/países. Foram banidos completamente do meio. Diante da perspectiva de ter seu sonho de viver de música abortado ainda no feto, Gabrielzinho acabou com o Hellhammer e, juntamente com o amigo Martin Ain, fundou o Celtic Frost (o nome veio de um álbum do Cirith Ungol que ambos gostavam muito).
Os Eps “Morbid Tales” e “Emperor’s Return” são lançados e causam impacto entre os novos fãs do metal extremo que então engatinhava. Sempre criativo e visionário, Tom empurra sua banda em direção ate então inexploradas e dá a luz a “To Mega Therion”, sucesso ainda maior de vendas e crítica.
Na seqüência, “Into The Pandemonium” é concebido para ser o magnum opus da banda, mas acaba sendo um tiro mascado devido a decisões erradas da Noise Records quanto a produção e divulgação. Ainda assim é ascendido ao status de “genial” e “obra prima” pela crítica especializada.

Após 2 tours exaustivas pelos EUA, cansados da relação negativa com a Noise e odiando-se mutuamente, a banda se separa.
Porém, a perspectiva de um novo e mais justo contrato faz com que se reúnam novamente, dessa vez com um novo segundo guitarrista, para gravar o que viria a ser “Cold Lake”. Disposto a se afastar do metal mais agressivo e da aura pesada que envolve a banda em geral, Tom guia as composições para um lado mais light no espectro musical. Logo Martin e Reed manifestam as mesmas velhas insatisfações e deixam a banda, e com isso Tom recruta novos músicos, todos vindos da agora já existente – ainda que pequena – cena hard rock suiça.
Empolgado com a colaboração de todos os envolvidos e o clima mais relaxado, Fischer baixa a guarda e com isso o resultado é um album “digno de pena, uma bosta completa” – segundo o próprio.

Após o massacre da crítica a “Cold Lake” e uma tour meia-boca pelos EUA, mais mudanças na formação: sai guitarrista, volta Martin Ain. Com 2 baixistas na formação, gravam um álbum para retomar o som do passado, dada a guinada radical e mal sucedida do anterior: “Vanity/Nemesis” é bem recebido por todos e parece firmar a posição da banda no cenario metal mundial.
Após várias tentativas infrutíferas, a nova empresa de management da banda consegue finalmente romper o contrato com a Noise Records e assinar com a joint americana BMG/RCA. Todos celebram. Pouco depois, em uma visita aos escritórios da nova gravadora em New York para uma reunião onde se discutiria o novo álbum e próximos passos, recebem a noticia que o selo decidiu dispensar o Celtic Frost de seu cast de bandas.
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O mercado mudou, o transatlântico replanejou o rumo. Sai o hard and heavy, entra o grunge e alternativo. Tom reconhece o movimento e em grande parte concorda com ele. Os excessos mataram o mercado do hard rock nos EUA, havia um desejo por algo novo, mais cru e real. Ninguem se importa se o Celtic Frost está em um de seus melhores momentos e planeja escrever o successor de “Pandemonium”, agora com mais maturidade e músicos mais experientes. Preparativos e demos para o que viria a ser “Under Apollyon’s Sun” são cancelados. Resta juntar os cacos, supervisionar a coletânea de despedida pelo selo Noise e lamber as feridas.
Aqui termina o livro, que ainda levou mais de 5 anos pra ser lançado. E desde então nunca foi reeditado. O Celtic Frost lançou “Monotheist” anos depois e acabou novamente. O Triptykon nasceu e deu frutos. E finalmente, eu e parte do TCH pudemos ver Totonho e os Cabras ao vivo e a cores (ou mais pra preto e branco) de pertinho, no Setembro Negro 2025.











