Sexta-feira de outono, uma rua sem saída na Lapa, Toninho Iron e outras almas penadas vestidas de preto com nomes de bandas indecifráveis em suas camisetas perambulavam nos arredores da Burning House.
Ao abrir o aplicativo da ticketeira para acessar meu ingresso, um susto: ingressos esgotados. A razão era o Vader, nada menos que uma entidade do deathmetal. Soldout é raro – sobretudo para uma banda que esteve em terrasbrasilis 2 anos atrás (na escondida Jai Club). Nada mal.
Na abertura, dois nomes: o Antrvm, banda paulistana pós-pandêmica muito sofisticada, que se espremia em metade de um palco pequeno (porque a bateria do Vader ocupava a outra metade). Felizmente, isso não impediu de apresentarem um deathmetal rápido, com boas guitarras e um vocal que se encarregava de dar a cadência e o groove necessários.
****
Na sequência, o LAC (que abreviou o nome pra facilitar a comunicação, mas que os trues vão seguir chamando de LaceratedAndCarbonized) despencando do Rio de Janeiro pra cá. O LAC é a prova de que bandas de abertura podem chamar público. Com um show sólido e repertório consideravelmente conhecido dos fãs, conseguiram rodas que serviram de aquecimento para a violência que viria a seguir.
Violência não apenas musical, mas física – a ponto de um maluco ser expulso a pontapés da roda por estar desferindo socos na cara das pessoas. Década de 1990 total. Aliás, por falar em década de 1990, parênteses: já foi a época de colocar horário do show mais cedo pra dar migué e tentar fazer as pessoas consumirem mais.
Voltando: o Vader tem uma violência de matriz slayeriana (não por acaso, encerram o show com um medley de “Hell Awaits” e “Raining Blood”) extremamente propícia a espíritos que desejam desencarnar. E não só são muitíssimo competentes no que fazem, entregando um show que parece playback de tão bom (sobretudo os vocais de Peter Wiwczarek, idênticos aos CD do alto de seus 60 anos), como estavam em êxtase com o público. Essa via de mão duplo do inferno resultou num baita show, que de tão intenso implicou mais de um bis e uns 2kg perdidos do baterista – mesmo com ar-condicionado.
Enfim… Um grande show.
Não à toa, prestigiado por gente como Moyzés do Krisiun, Yamada ex-Claustrofobia, Jean Patton ex-Sepultura, Jairo Vaz do ChaosSynopsis… Quem sobreviveu, certamente tem história pra contar.
Eu não ia ao show e não sei se tenho muito a dizer.
O principal motivo é que ainda não digeri o que se tornou o AsILayDying. Parei de acompanhar antes mesmo dos problemas envolvendo Tim Lambesis e sua ex-esposa (ele foi preso por contratar alguém para matá-la, cumpriu pena, e assumiu a culpa) e dele com a própria banda (que foi inteiramente substituída depois do lançamento do último álbum tb aparentemente por problemas com o líder).
Não saber não me deixa confortável.
Por não acompanhar, não fazia muito ideia do que esperar da formação, mas a surpresa foi boa: Tim Yeung na bateria (ex-DivineHeresy, HateEternal, MorbidAngel…), Chris Clancy no baixo (que tem trabalhado com mixagem e produção de bandas como MachineHead, Kataklysm, Overkill…), Don Vedda em uma guitarra e Bill Hudson (guitarrista brasileiro que já tocou com uma galera fora, de Savatage a MorbidAngel).
Aliás, é impressionante a empolgação do público com músicos brasileiros em bandas gringas. Talvez toda banda deveria vir pra cá com um. Um conjunto coeso e muito bem ensaiado, que tem em comum o fato de serem excelentes e parecerem um grupo de bodybuilders.
Sabia que tocariam na íntegra o “ShadowsAreSecurity” por ocasião do 20º aniversário do álbum. Embora não seja meu preferido (nesse caso, “ThePowerlessRise”), é um clássico dos caras que fundaram o metalcore. E, como já tinha visto em 2011, sabia que entregariam um ótimo show – o que não é fácil, porque é super técnico e os caras agitam o tempo inteiro. Mas, como já disse, preparo físico ali não falta.
Na pista, um bom público também bem bombado. O que assusta um pouco pelo tamanho do braço de homens e mulheres e pelos gritos de “Sem violência!” antes de começar as rodas (sempre acho que, quando alguém precisa falar isso, é sintomático de que tem violência). De fato, rodas insanas – inclusive no momento que o baixista desceu pra tocar no meio do público, enlouquecido (foto 4, embora quase não se veja).
Assistir bons shows e encontrar bons amigos talvez sejam as principais razões de ser do rolê de metal. Inclusive, amigos salvam shows ruins e bons shows justificam ir sozinho. Mas, pra mim, que falava de construção de sentido no post do Nevermore, restou um desconforto tb. Bobagem minha? De novo, talvez.
A primeira coisa que me ocorreu quando vi o clipe foi: nossa! um clipe bem produzido, cheio de cgi, grandiloquente, … Me parece que o DimmuBorgir perdeu o lugar. Mas tb pudera: estão há anos numas crises meio sem sentido criadas por eles mesmos.
Pois fui investigar. Vamos aos fatos:
Dimmu Borgir e Behemoth têm turnê juntos (e junto com o Dark Funeral) marcada desde novembro passado pra outubro desse ano. Não consigo afirmar quem será headliner, mas, antes disso, Behemoth tem mais duas – em fevereiro e abril – enquanto Dimmu Borgir não tem nenhuma.
O último disco do Dimmu Borgir é de 2018 (quase 8 anos). Nesse período, Nergal e companhia lançaram 3.
Dimmu Borgir tem na casa de 200 mil seguidores no Instagram (2/3 do número da Crypta). Behemoth tem 800 mil (mais que Crypta, Nervosa, Krisiun e Ratos juntos).
Desde 2023 (volta efetiva dos shows), Dimmu Borgir fez 19 shows. Behemoth 101 – que não é muito… Pra dar uma ideia, Crypta fez 101 só em 2025. E nem foi o ano mais cheio delas: em 2024, foram 139. Voltando ao clipe: eu gosto mais da pegada anterior dos clipes do Behemoth, que levam mais pra uma dimensão individual do sofrimento, que dessa coisa mais apocalíptica. Mas toda a produção estética dos caras é excelente. Nesse, por exemplo, achei muito legal o paralelo Babel/cidade contemporânea do leste europeu (seria Varsóvia?).
Aliás, esse CD tb não é dos meus preferidos deles. Mas isso é outra história. Pelo menos, escolheram uma das melhores músicas dele pra esse clipe.
E ficou bom pra caralho. Muito melhor que o último!
Numa linha de thrash mais recente, com elementos de deathmetal melódico, pro-tools, mais bem produzido. Sem as bobagens de metaleiro cachaceiro do último.
Marco me escreveu: “EoDarkTranquillity?Encheu?” Minha resposta: “Cara, encheu e foi antológico!”.
De um show cheio e cheio de veículos de imprensa, decorre uma dificuldade que é resenhar um show da minha banda favorita sem cair no universo de resenhas mais ou menos pré-prontas, de caráter relatorial, que se dedicam a fazer uma análise combinatória de adjetivos elogiosos e descrever a ordem em que que foram tocadas as músicas. Felizmente, nunca foi isso que as pessoas que frequentam o ThrashcomoH quiseram ler. Então, vou me dedicar a um relato absolutamente pessoal e passional.
****
Não é segredo pra ninguém que, além do DarkTranquillity ser a minha banda favorita (e esse era meu 7º show deles), Mikael Stanne é, pra mim, o melhor músico em exercício na atualidade – não só por suas performances vocais, pelas letras que compõe, pelos projetos que monta, mas porque ele é um desses seres meio mágicos que habitam esse mundo, carregado de uma certa aura e uma capacidade de desentranhar poesia das sombras e da escuridão da alma humana (gente da estirpe de WarrelDane e Chuck Schuldiner).
A diferença de Mikael é que ele produz num ritmo absolutamente alucinante: tem quatro bandas ativas, além de ser convidado a cantar em outras. No ano passado, por exemplo, lançou dois discos com a mesma banda. No anterior, em menos de uma semana, lançou três singles com bandas diferentes (CemeterySkyline – “In Darkness”; DarkTranquillity – “Unforgivable”; e GrandCadaver – “Skinless God”).
Pois antes mesmo de chegar ao Carioca, alguns amigos – entre eles um que eu não encontrava há mais de 15 anos – me mandou uma mensagem dizendo que Mikael estava na porta atendendo às pessoas que por lá passavam.
A expectativa deles era a mesma do Marco, de que teríamos um show vazio. E logo me veio à mente não só passagens talvez não muito bem planejadas da banda pelo Brasil (como um show que vi em Limeira, realmente esvaziado) e o recente show do Tiamat. Quando entrei no Carioca, entretanto, meia hora antes do início e vi a casa cheia (não absolutamente lotada, mas muito mais do que suficiente para um domingo à noite em janeiro), um alívio: eles não mereceriam menos que isso.
Afinal, era turnê de comemoração dos 30 anos do “TheGallery” (1995) e 20 anos do “Character” (2005). Naturalmente, os setlists já estavam rodando pela internet e não houve mudanças em relação ao do Chile dois dias antes, de forma que não havia surpresa na ordem das músicas. Mas há algo a se notar: a escolha por tocar em bloco as músicas (primeiro as 5 do “TheGallery”, depois as 6 do “Character” e, por fim, as 8 entre clássicos e músicas de trabalho, e o cover do AttheGates no final), a meu juízo, foi excelente.
Isso porque um bloco de músicas te permite entrar na ambientação do disco e entender melhor o que era aquele momento. E para cada um desses atos, um backdrop diferente, além de, no último, um telão magistral repleto de artes lindíssimas de Niklas Sundin, ex-guitarrista da banda desde seu trabalho na antiga Cabin Fever Media.
Não vou me dedicar a falar sobre o entrosamento da banda, absolutamente sincrônico, ou sobre como os “novos” integrantes (Fora Stanne – vocal – e Brändström – teclado – são todos pós-pandêmicos) se encaixaram bem nela. Vou apenas repetir uma frase que disse na introdução de “Lost to Apathy”, cercado de pessoas queridas e vendo a minha banda predileta:
“Não há lugar no mundo melhor para se estar nesse exato momento”.
Encerro como encerrou o show, com o brilhante cover de “Blinded by Fear” do AtTheGates em homenagem a Tomas “Tompa” Lindberg, falecido ano passado, e as tantas imagens dele no telão, que levaram Mikael às lágrimas. Havia algo de catártico, havia demônios a exorcizar – lembrando que no dia da morte de Tompa, Mikael estava aqui em São Paulo e protagonizou um dos momentos mais emocionantes que já vi em um show.
Fica claro que ele ainda tenta expurgar sua própria dor por meio dessas homenagens. É absolutamente compreensível. Por vezes a música do DarkTranquillity teve o mesmo papel para mim. Pois ver Mikael tentar conter as lágrimas, nesse momento e em outros (enquanto a banda era aplaudida e tinha seu nome gritado), reconecta, pois expõe a humanidade gigantesca de uma pessoa que já passou pelos maiores palcos de metal do mundo e, aos 51 anos, ainda tem essa capacidade de se emocionar.
****
Como se não bastasse isso tudo, ao final a banda absolutamente simpática atendeu todos os fãs que estavam na porta, mesmo tendo que voar ainda naquela noite, pois se apresentariam no dia seguinte na Argentina. Ainda assim, Johan ficou por longos minutos – quiçá, uma hora – conversando com as pessoas lá fora, dando aula de sueco e aprendendo português. Um registro do que mostra bem o que torna o DarkTranquillity tão diferente.
Muito obrigado, Mikael, Martin, Johan, Joakim, Christian e Peter. Voltem sempre, porque sempre que voltarem estarei lá.
Desde que esse show foi marcado estava ansioso por assistir – não só porque, pra mim, o último cd do Kanonenfieber esteve na lista de melhores do ano passado, mas porque os vídeos que havia assistido davam conta de uma performance excelente tanto em termos de execução dos músicos, como da sua produção mais ampla, carregada de teatralidade.
Mas, antes, quem é o Kanonenfieber? É mais um dos projetos de Noise, um músico multi-instrumentista que não revela a sua identidade e tem pelo menos três projetos – todos de bandas anônimas (Leiþa, Kanonenfiber e NonEstDeus).
No caso do Kanonenfieber, trata-se de um projeto de death/blackmetal melódico cuja temática central é o horror da Primeira Guerra Mundial, a miséria humana, a violência, o desamparo, a dor, o sofrimento e o convívio com a finitude, sempre denunciando isso como parte de uma criação humana. Acho importante sublinhar a visão crítica para afastar eventuais entusiastas de totalitarismos.
Aliás, parenteses: por uma feliz coincidência, sábado fui assistir “Wozzeck”, de Berg, na Sala São Paulo (montagem excelente!) e na sexta, a um debate sobre ela com Vladimir Safatle e Christian Dunker. Em meio a tantas diferenças, em comum o foco no período histórico e a exploração da degradação humana como tema, já que a peça foi escrita no pós-Guerra (sua estreia se deu em 1925 em Berlim). Pra quem não conhece, recomendo muito.
Voltando: a casa talvez fosse a melhor da cidade, mas tinha dúvidas se encheria, por ser uma banda nova, por se tratar de um segmento mais nichado, por ser um show solo, por ter outros eventos concorrendo (a menos de dois quilômetros dali acontecia simultaneamente um festival com BlackPantera, Eskröta e Surra)… Felizmente, estava errado.
Muita gente gosta do trabalho dos alemães por aqui. Gosta do som, das músicas escritas em alemão, das máscaras, do caráter teatral … Tudo isso compõe uma aura que atrai pessoas. Desde sempre. Saber explorar isso é uma arte. Até pq todo alemão tem um pouco de TillLindemann.
Marcado para 20:00, o show começou germanicamente no horário, depois de algumas músicas de introdução de época que, junto com o palco repleto de sacos e arames farpados, criavam um clima ótimo para a dupla “Grossmachtfantasie/Menschenmūhle” incendiar a casa.
A partir daí, o show tem várias alternâncias – ou atos -, muito “tiro , porrada e bomba”, com troca de figurinos, encenações, coreografias … Mas amarradas por um lastro de continuidade, pela qualidade do som, pela precisão e sintonia dos músicos (destaco a brilhante dupla de guitarras dobrando várias passagens e a afinidade entre Noise e Gunnar no palco) e sobretudo por um ritmo insano ferozmente sustentado pela bateria que atropela como um Panzer durante todo o show.
Ao longo do espetáculo, via-se músicos e público extremamente satisfeitos com o evento. Pudera: estava tudo certo… Ainda que tenhamos saído pessoas piores do que entramos.
Por falar em variação [acho q era uma conversa minha com o Leo sobre Cólera e RatosdePorão], eu tenho certeza que o Kreator está fazendo uma mudança tão grande quanto foi o “ViolentRevolution“. Que todo mundo cobrava há muito. E tá ficando excelente.
Música dos Cavalera pro Zangief, personagem do StreetFighter, no lançamento da nova versão do jogo.
Além de uma sacada (pq podem crescer num mercado de molecada que não conhece os caras), arrisco dizer que é a melhor que fizeram desde o fim do Sepultura. E a melhor do Igor desde lá tb.
Pra mim, que nunca tive preconceito com nenhum projeto do Max pós-Sepultura (aliás, pelo contrário: costumo gostar bastante!), é sua pior música de trabalho – de longe.
Quando comecei a ouvir, achei que viria um retorno aos primórdios da banda, algo surpreendente e interessante, mas logo na segunda passagem a música parece se perder de uma forma quase irreversível (com pequenos momentos interessantes que são logo substituídos, sem uma linha de fato).
Aquilo que Max sempre fez de melhor, seus riffs, fica soterrado por um percussionismo entre o pueril e o experimental, quase sem melodia ou contraste.
A que se deve? Não sei. Mas tenho a impressão de que Max, isolado na composição com Zyon, sente muita falta de um maior diálogo… Seria prudente, pra não ouvir, como no poema de Manoel Bandeira, que a única coisa a se fazer é tocar um tango argentino.
***
[enviado hoje cedo]
Os caras lançaram uma versão de lyricvideo que “desenterrou” a guitarra do Max. Agora, dá pra ouvir muito melhor. E, de fato, soa muito melhor e muito mais parecido com o Soulfly antigo.
Acho que vale até reescrever aquele comentário pra postar no TcH.
Era uma sexta-feira fria, show da Dorsal no teatro do SESC 24 de maio, localizado no centro da cidade, próximo à Galeria do Rock. Um local emblemático para o metal paulistano, com uma banda histórica para o metal nacional. Uma combinação perfeita para uma grande celebração do funeral do rock, que Carlos Lopes contínua e acertadamente enuncia.
Àqueles que se surpreenderam ao ler “teatro” e “Dorsal” na mesma frase, não se enganem: não é a primeira vez que a banda se apresenta em “palco italiano” (essa disposição usual de teatro que conhecemos).
Aliás, de um show da Dorsal espera-se tudo, e ainda se surpreende. Carlos, uma espécie de Antônio Conselheiro dos nossos tempos, avisa de saída a alguém que incautamente pede para que não se fale de política, que seria impossível, já que metade de si é política e a outra é espiritualidade. Essa conjunção empresta um caráter messiânico, no melhor sentido da palavra, ao show da Dorsal – ou, como o próprio Carlos chamou, à “procissão”, sempre dividida entre metal de ponta e comício rebelde.
A esse propósito, Txuca disse que ontem [resenha escrita sábado] teve menos comício e mais música.
A impressão dele é que, em parte, a guitarra de Carlos pareceu menos instável que outras vezes (menos microfonias, menos interrupções) e, em parte, que estavam mais a fim de tocar. A minha é de que esses fatores colaboraram, mas que não há show da Dorsal padrão. E que Carlos sempre fará um show para aquela noite, para aquele lugar e para aquelas pessoas. Ainda que haja um set, tenho a impressão de que ele é uma espécie de plano B, que só vai acontecer se tudo der errado, ou seja, se os espíritos zombeteiros (encarnados ou não) que habitam os rolês não participarem.
No mais, parece um pouco redundante descrever as tantas qualidades de um show da Dorsal, já tão dissecadas nesta casa com H. Ainda assim é preciso dizer: a Dorsal é foda. Carlos é foda. Sua banda é foda. E soam muito foda no palco.
Isso posto, falemos brevemente do espetáculo. Para além de mais músicas, Carlos trouxe uma inédita, que, segundo ele, nunca haviam tocado antes: “Fighting in Gangs”, do “SearchingFortheLight“, primeira Ópera thrash da história.
Para mim, indiscutivelmente a melhor do show. Não pela surpresa, porque como já disse, Dorsal é sempre surpreendente, mas pela mistura de técnica apurada, composição sofisticada e execução impecável. Tenho a impressão de que seria a escolha da galera que se aglomerava nas laterais do teatro (aqueles ainda com idade para não reclamar do joelho ou das costas no dia seguinte) que, empolgadíssimos, cantaram todas.
Eu me sintonizo muito com as músicas do “Pandemia“. O disco certo pra hora certa. Coragem, engajamento, com doses de erudição, pra exorcizar o burro que habitava o Planalto. Dele, vieram “Pandemia” e, justamente, “Burro”.
Não faltaram clássicos tb, como “Metal Desunido” e “Vitória”. E Carlos descendo a lenha em sua guitarra baiana (ainda que eu ache a distorção ótima para as notas mais agudas e um pouco suja demais para as graves, que não contam com o reforço dos PowerChords) com a cozinha de baixo e bateria muito atenta.
Entre as músicas, foi dia de “homenagens” a Donald Trump; de história da primeira vinda de Carlos a São Paulo, quando dormiu na frente da Baratos Afins esperando Luiz Calanca – que, por sinal, estava na primeira fila; de sua infância vivida na vizinhança carioca de Zuzu Angel e Rubens Paiva; de cobrar militares pela “Tortura” promovida, …
Enfim, uma celebração à altura do metal nacional que Carlos lutou a vida toda pra construir, mas que não é esse “metal nacional s./a.”. Muito bom ver um clássico em plena forma. E muito bom poder sair de lá, entre Zé Pilintras do centro com grandes camaradas encerrar a noite num outro clássico, o Estadão.