Para comentar o q foi o show do Behemoth domingo, só digo inicialmente uma coisa: acreditem em todos os clichês de resenhas feitas e a fazerem: “celebração”, “noite memorável”, “apoteose”, “lendário”, “noite perfeita, execuções impecáveis” e etcetera
Por eu ter ido totalmente tabularasa ao show, fui atrás de parâmetros comparativos com Slipknot, Ghost, Opeth e ArchEnemy para tentar me explicar. Uma vez q repertório ou “fases” da banda pra mim passam batido.
assim: o Behemoth acerta onde esses outros “erram” em quesitos.
• Slipknot: me ocorreu mais de uma vez a seguinte reflexão: fossem estadunidenses, o Behemoth tvz estivesse maior q a banda dos palhaços.
TUDO é pensado e engrenado no show. Som, imagem, figurinos e execução instrumental. A malignidade tb é ostensiva, sem máscaras. Apenas o baterista não é melhor q o Eloy, e isso não é um comentário patriotário.
• Opeth: o Behemoth traz peso e CLIMAS, como os suecos. Q me pareceu, vendo-os ao vivo, precisarem conjugar melhor peso e clima. A horda de Mikael Åkerfeldt parece mais dada a viajeiras (progressivas) q a ostentar tb um peso sonoro.
• Ghost: nitidamente os poloneses lidam melhor com a conjugação visual grotesco + som pertinente. A banda de Tobias Forge tem um visual e extravagâncias em show realmente fortes, mas o som praticado nunca esteve à altura, como faz o Behemoth
• ArchEnemy, quesito baterista: no AE, a bateria de Daniel Erlandsson é toda trigada (digitalizada), o q torna o som bem bidimensional. E assim como com o som da banda, falta dinâmica. Ou essa fica restrita ao vocal.
O baterista dos poloneses, Inferno, toca muito. Muito mais q Erlandsson. E trigado tb. Mas é um baterista muito melhor, e não só pelos 2 bumbos, 4 tons e 2 surdos, 2 octobans e 9 pratos: o sujeito tem técnica e noção de dinâmica.
E se ouve isso nos sons o tempo todo. Teve uma passagem (não lembro mesmo o som) em q o cara usou 4 técnicas de viradas diferentes para enfeitar a mesma. Sem exibicionismo nem auto-indulgência.
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Minha surpresa era com o monte de mulher completamente devota. Dos tipos metaleira mesmo e tipo gótico. Fulana próxima na pista chamava atenção em torno, pq se agitava como estivesse convulsionando.
Era descoordenada corporalmente, não uma pomba gira ou q estivesse possuída ahah
A surpresa com o público presente era tb de Nergal, q não cansava de agradecer e observou o quanto o público tem aumentado a cada vinda da banda aqui.
Sujeito muito pé no chão, ainda vendo a própria banda em evolução, zero estagnada.
O som estava excepcional, com o técnico de som sendo alguém do Hate, poloneses tb e q tocam no Burning House hoje à noite.
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Foi o show da vida pra muita gente ali e certamente um dos melhores shows de 2025, por tudo o q envolveu: repertório, telões, figurinos, execução e interação com o público.
O Behemoth faz um show super profissional, mas zero estéril. O lance é sanguíneo e sanguinário mesmo. Um novo patamar de deathmetal, cuja discussão passa a ser se a acessibilidade deles é maior, ou se o público anda mais true.
Não são exatamente uma banda nova. Nem veterana. Mas é visível q evoluem pra (e com) um público q evolui junto, e isso poucas bandas conseguem fazer.
Curti muito, e se fosse fã desde antes, tvz curtisse mais ainda. Dos grandes shows do ano, top 10 obrigatório.
2 subtextos permeiam o texto a seguir: 1) público feito de idiota; 2) Opeth e Savatage não são bandas de festival.
O Opeth é uma banda estranha.
Fazem um som dificilmente categorizado. Progmetal gutural?
Não são banda nova (contei 14 discos – é isso?), não fazem um prog “típico”. O 2⁰ guitarrista, o parceiro mais antigo de Mikael Åkerfeldt. Mais baseados em texturas, climas e MELODIAS. Sem fritações gratuitas e forçadas.
Me remetem a uma citação q faço de CarlosSantana: “encham uma música de solos, vc atrai só homens e músicos. Ponham melodias, vc atrai as mulheres”. (Algo assim)
Era um novo público metaleiro e de prog: muita mulher presente e cantando as letras. Havia no Unimed tb os metaleiros de conservatório fazendo airdrumming e airguitar, mas com a devida apreciação. Não pra tentar impressionar a quem estivesse em volta, supostamente tendo ido ao show pra dar aval de fã a desconhecido. DreamTheater? SymphonyX? Prog de tiozão, já eram.
O único senão achei o volume baixo – comparado com o Savatage logo após, coisa de “banda de abertura” (putz) – e a outra esquisitice é Åkerfeldt falando besteira entre as músicas, enquanto trocavam afinações e instrumentos. Algo não tão típico em se tratando de seres nórdicos. É o Slatan Ibrahimovic do metal.
Não entendi tudo o q ele disse, rachei com a auto ironia devido ao bigode e uma ex-namorada e entendi quando apresentou os 3 sons recentes, de “TheLastWillAndTestament“. Pareceram funcionar ao vivo, backingtrack de IanAnderson incluído.
Falava via WhatsApp com o Leo ao final: maioria aqui veio pra ver eles, cantaram todas as músicas (sobretudo “In My Time Of Need”), aplaudiram passagens de solos e finais de viradas bateristicas (aliás, baterista finlandês foda). Além disso, bora subtextos? Tocaram duas músicas a mais q no Monsters Of Rock.
Åkerfeldt pareceu legitimamente emocionado com o acolhimento. Uma banda com um público e um ensejo muito favoráveis.
Mais um detalhe: 1h30 de show, iniciado britanicamente às 19h30. Não sou iniciado no culto aos suecos e tenho muito ainda a estudar, mas fiquei com a sensação de apresentação q daqui a 20 anos será lembrada como memorável, duma banda plena e não cover de si própria.
Set-list: 1. “§1” 2. “The Master’s Apprentices” 3. “The Leper Affinity” 4. “§7” 5. “In My Time Of Need” 6. “§3” 7. “Ghost Of Perdition” + bis com 8. “Sorceress” 9. “Deliverance”
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O Savatage é uma banda estranha.
Fazem um som dificilmente categorizado. “Fronteiriço”, segundo o Leo. São hard, powermetal, prog?
Meio q são isso tudo e a mim demandam dois tipos de teses de mestrado: 1) são grandes só no Brasil. Como e por quê?; 2) quem é o público q esteve ali no Unimed só pelo Savatage?
Não são banda nova, claro. Mas tb não encaixam entre os dinossauros covers ruins de si próprios. Devido a terem encerrado atividades? Tvz. Só q geraram filhotes: Trans–SiberianOrchestra, CircleIICircle e JonOliva’sPain. Q não atingiram a envergadura da banda matriz. Sequer viraram cultbands, como tb não o Savatage.
Caso único .
O público presente, majoritariamente tias e tiozões + metaleiros de sapatênis, cantou TODOS os sons. Inclusive os lados b. Subtexto? Os VINTE sons; show no sábado foi ⅓ do show “extra”.
Achei surpreendente o repertório de “TheWakeOfMagellan” (1997) predominante. Sete sons. Q com outros 5 de “HandfulOfRain” (1994) e de “DeadWinterDead” (1995) deram uma coerência absurda ao todo. Repertório velho, mas não jurássico.
Fácil de entender: discos – tirando “Handful” – q contaram com os ⅘ de integrantes ali presentes (Zak Stevens, Johnny Lee Middleton, Jeff Plate, Al Pitrelli e Chris Caffery). Q tocaram na mesma vibe do Philips Monsters Of Rock de 1998: visivelmente à vontade, confortáveis e interagindo entre si como grandes amigos.
E tvz o sejam.
Zak Stevens acho o maior às na manga da banda e do show: vocalista de tessitura média desde sempre, não precisou miguelar agudos. A não ser na própria “Handful Of Rain” q pareceu executada tons atrás, sei lá se com necessidade.
Pra eventuais apoios, havia dois tecladistas escondidos (mesmo: em nenhum momento foram iluminados) e não apresentados (aliás, ninguém foi apresentado) fazendo as partes de JonOliva e algum backing pra Zak. Não é trapaça.
Outro elemento fundamental na apresentação, provavelmente desperdiçado sábado, foi o TELÃO. Artes e efeitos incríveis, desde “Jesus Saves” até os ofidios de “Taunting Cobras” (minha maior surpresa) e a arte de “DeadWinterDead“, devidamente contextualizando tudo.
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Volto um pouco às músicas, baseadas em elementos óbvios, mas não dolosos. Culposos.
“Edge Of Thorns” tem uma cavalgada à “Heaven And Hell” (BlackSabbath), mas ninguém acusa chupim. “The Storm”, instrumental executada pra Al Pitrelli ter seu momento, é praticamente “Confortably Numb” (PinkFloyd), mas com solo e bateria diferentes. Causa déjà–vu, ao invés de desprezo.
E “Chance”? Claramente inspirada em Queen. “Bohemian Rhapsody”. Não? Mas ninguém diz q é plágio. Pq não é. “Power Of the Night” mistura Accept e JudasPriest de modo quase imperceptível. Inaudíveis a ouvido nu. Savatage tem essa manha e nunca a perdeu.
“Turns to Me” e “Taunting Cobras” foram minhas preferidas. “The Hourglass”, interminável no disco, desceu macia. Baita lado B. “Jesus Saves” e “This Is the Time” fugiram ainda ao óbvio, deixado pro final: “Gutter Ballet”, “Edge Of Thorns” e “Hall Of the Mountain King” – faixas-título filhas únicas de seus discos – derradeiras.
Não acho q alguém tenha saído decepcionado ou reclamando da falta de algum som. Uma hora e 45 minutos ninguém (mais) faz. Porra. Acho tb q se tivesse mais um show extra terça ou quarta-feira, encheria. O Savatage se mostrou uma banda cover oficial sem deméritos nem bolor.
Não gostei da parte melodramática de tributo a Criss Oliva e de JonOliva apelativo entoando “Believe” no telão – ainda q com a banda incrivelmente tocando junto. Savatage não atingiu o nível pra ter mártires pelo caminho. Minha opinião só, ninguém ligou ali.
Meu veredicto: Opeth foi foda, mas não foi o Savatage. Savatage foi muito foda, mas não foi o Coroner.
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Além disso, externo toda minha EMPATIA a quem não conseguiu ir a essa noite “extra” de Pista Premium a 750 reais e normal (a minha) a 350. Conheço gente q foi aos 2 dias, e privilegiado quem o conseguiu.
A quem pegou caro pra ir ao Monsters Of Rock e soube q Opeth e Savatage “extras” foram melhor, sinto avisar: vcs foram enganados. Q merda.
Set-list: 1. “The Ocean” 2. “Welcome” 3. “Jesus Saves” 4. “Sirens” 5. “Another Way” 6. “The Wake Of Magellan” 7. “Strange Wings” 8. “Taunting Cobras” 9. “Turns to Me” 10. “Dead Winter Dead” 11. “The Storm” 12. “Handful Of Rain” 13. “Chance” 14. “This Is the Time” 15. “Gutter Ballet” 16. “Edge Of Thorns” 17. “The Hourglass” 18. “Believe” 19. “Power Of the Night” 20. “Hall Of the Mountain King”
Falar de festival é sempre difícil, por vários motivos: porque há muito a ser dito, e porque nem sempre se conhece todas as bandas com a profundidade necessária pra uma resenha (às vezes, até por falta de interesse pela banda). Mesmo sabendo de tudo isso, decidi aceitar o convite do nosso editor-chefe e arriscar.
Que a estrutura do Allianz pra show é fora da curva, isso todo mundo sabe – aliás, o estádio é mais feito para show do que para jogos (que o digam todos os jogadores de São Paulo que se lesionaram na mistura de cortiça com concreto que chamam de gramado sintético). A acústica é excelente e a montagem do show também ficou muito boa. Uma pena que quem chegou por volta de 11:00 teve que enfrentar uma fila monstruosa para entrar.
Por um lado, isso quer dizer que tem muita gente aqui dentro, o que é bem impressionante, considerando que esse não é o único festival de metal do mês; mas, por outro, que poderiam ter dimensionado melhor a revista pra dar maior vazão do fluxo de pessoas. Eu, por exemplo, só consegui entrar na quarta música de Stratovarius.
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Outra coisa que parece ter funcionado foi não só o line–up, mas a runningorder. O Stratovarius realmente parece ter chamado bastante gente para chegar desde o começo. Eu confesso que eu tinha alguma expectativa – e, como a expectativa é a mãe da frustração, que fiquei decepcionado tb. Cheguei na quarta música, “Speed of Light”, e vi TomiKotipelto cantando alguns tons abaixo (é lógico que ninguém espera que o cara aos 56 anos esteja no auge da forma, mas também esperava um pouco mais). Outra coisa que chamou a atenção foi a velocidade um pouco diminuída das músicas – algo bem injustificável considerando que só Kotipelto e JensJohansson são da formação original e os demais são integrantes mais ou menos novos, mas que facilmente dariam conta das músicas na sua versão original.
Isso posto, o Stratovarius fez um show bom, sobretudo para os fãs mais emocionados, que estavam na grade e que apareciam nos telões. O setlist balanceou bastante músicas da fase mais clássica, e as mais recentes. Confesso que, pra um festival como esse, de uma hora, eu investiria mais em clássicos (além de tirar a interação que poderia permitir uma música a mais).
O público tb comprovou o acerto do line–up: tinha uma galera bem diversificada. Muita mulher, muitos jovens com os pais, bastante gente mais velha – lógico: eu estou no lugar das pessoas idosas. E acho que tem mais gente na pista Premium que na vista normal, o que mostra o tamanho do problema.
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Um parenteses: a profissão de influencer tem que ser criminalizada. Os caras da produtora que vêm falar no intervalo entre uma banda e outra são umas tristeza: não tem quatro adjetivos no vocabulário e só repetem chavões e bordões. Nem mesmo os mais emocionados conseguem interagir de verdade.
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Eis que começou o show do Opeth, e aqui tem que ser aberto um outro parêntese: Opeth talvez seja uma das melhores bandas da atualidade. Eles conseguem algo que é muito difícil, que é tocar metal progressivo de uma forma não matemática e muito mais sofisticada. Talvez – e eu posso falar exagerando – eles estejam para o momento atual no metal como o Rush esteve para o rock. É realmente uma coisa absurda o que esses caras fazem. Na terceira música (e claro, são poucas músicas no show porque elas são longas), eu já tinha absoluta certeza de que seria o melhor show do dia inteiro.
As pessoas precisam ouvir Opeth, ver o show do Opeth e estudar Opeth, porque realmente não é trivial o que esses caras fazem. Tem uma cozinha excelente, um tecladista psicopata, um guitarrista foda, que não pára o show inteiro e Mikael Åkerfeldt, que é um show à parte.
Opeth é sensível, é agressivo, é pesado, é lento, é acelerado, é bonito, é desgraçado, é soturno, é explosivo… é impressionante. O som é muito cheio de nuances, muito bem elaborado, e muito bem executado. Mikael Åkerfeldt, o cara por trás de tudo, é um monstro e eu tenho medo que esse cara pode vir a fazer no futuro.
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Na sequência veio o Queensryche. Não é uma banda que eu conheço, nem tampouco goste muito. Desde a passagem de som, eu achei que o volume dos instrumentos estava desproporcionalmente alto. Até brinquei com um colega perguntando: “Por que um som tão alto pra uma banda tão média?”. Isso se confirmou no show.
E digo que o volume altíssimo chega a prejudicar a apreensão do show, porque incomodava antes de permitir prestar atenção – e olha que o setlist parece ter tido bons clássicos, sobretudo do “Operation: Mindcrime“. Eu, que já não era um grande fã, fiquei no bode e continuo, esperando que alguém que goste mais faça comentários mais embasados que os meus.
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Na sequência veio o Savatage, claramente a banda mais esperada do festival. Eu, quando adolescente, gostava bastante dos caras, mas assistindo ao vivo, acho sinceramente que o melhor que fizeram foi parar. Porque se tornaram uma banda cult.
Sinceramente, acho que se tivessem continuado, seriam o que eram na época do “PoetsAndMadmen“: menores que o Helloween. Até porque o fato de serem uma banda fronteiriça (um pé no hard, um no melódico, um no heavy…) fez com que um monte de gente tivesse saudades. Se mantivessem a banda, acho que soariam só estranhos. Prova disso é que tem 5 ou 6 clássicos, muito bons, mas consideravelmente destoantes entre si, que reuniam todos no final. Aliás, achei o set bem desequilibrado.
Uma pena, porque o início do show ficou cheio de momentos vazios por conta da bateria de bumbo e caixa muito altos – e olha que JonOliva participou dessa escolha. Enfim, meu veredito é que claramente não é uma banda de estádio. Tenho pra mim que o show que farão na segunda-feira será bem melhor.