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sábado, 30 maio, 2015 por Txuca

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“Na Estrada Com os Ramones”, Monte A. Melnick + Frank Meyer, 266 páginas, 2003, Edições Ideal

Um trecho (p. 113): “CJ: Eles vieram ao camarim e eu estava trocando de roupa para o show, então estava sem camisa. Foi estranho. O Kiefer parou para falar com o Johnny, e a Julia se virou e veio direto na minha direção. Ela ficou falando sobre minhas tatuagens e as mãos dela estavam em mim. Eu fiquei tipo ‘O-lá!’. A convidei para um bar na vizinhança depois do show, onde eu estaria com a equipe, relaxando depois de tocar. Ela disse que talvez chegasse tarde, porque teria que dispensar o Kiefer primeiro. Agora as coisas estavam ficando interessantes. Ouvi dizer que ele é um alcoólatra notável, então acho que ela sabia que no fim da noite ele estaria destruído e ela teria que ficar de babá. Então subimos ao palco e os vi na frente durante a primeira música, ‘Durango 95’, quando um skinhead enorme acertou o Kiefer na parte de trás da cabeça. A última coisa que vi foi a Julia o ajudando a ir embora. Pensei, ‘Bem, acho que não vou vê-la hoje à noite’“.

Meu trecho favorito: “Monte: Perguntávamos ao promotor onde havia algum 7-11 na saída da cidade ou próximo ao hotel, e pegávamos uns lanches ou revistas. Isso começou por acaso, mas eles ficaram obcecados. Depois de mais ou menos uma década, eu sabia que tinha que fazer isso. Eles sabiam que eu sabia, mas mesmo assim eles vinham e me enchiam toda noite. ‘Monte, encontre um 7-11, precisamos parar’. Então eles ficavam metade do tempo andando por ali sem comprar nada. Uma vez, no início, estávamos andando no mercadinho de um posto de gasolina no Texas. Estávamos dirgindo há muito tempo e os caras estavam travados, depois de passar o dia initeiro sentados. Dá para imaginar a aparência deles, empilhados na van, fedidos e duros. Eles estavam anando pelo posto de gasolina confusos como zumbis, como alguém saído de A Noite dos Mortos-Vivos, quando a atendente vira para mim e diz: ‘É muito legal da sua parte tomar conta desses garotos retardados’. Rachei de rir. A banda estava indiferente“.

***

Quem é esse “Monte”? Monte Melnick, motorista de van dos Ramones desde os primórdios. E tb, desde o início, o gerente de turnês e faz-tudo dos caras. 2263 shows fizeram eles, 2263 shows esse sujeito articulou, agendou, entregou pedidos, recebeu cachês, cuidou dos caras. Principalmente de Joey, o freak dos freaks ali.

Ainda q seja dificílimo ranquear o mais insano na banda.

Esse é um livro q comprei pelo assunto, bem menos q pela capa tosca, e recomendo mais até do q os outros 3 q já li sobre os Ramones *. Por conta do modo como – e tb a história pregressa de Monte, em suas bandas de relativo anonimato – foi alinhavado: em seqüência initerrupta de depoimentos de personagens e personalidades (93 listadas num glossário inicial) q estiveram e/ou trabalharam com a banda, incluídas namoradas e ex-esposas, além dos próprios integrantes e ex-integrantes. Incluídos Dee Dee Ramone e Elvis Ramone. Exceto Richie Ramone.

Os capítulos seguem em ordem cronológica, com cada capítulo versando sobre algum aspecto relativo a roadies, gravações, convivência, bullyings (destaco o “No Melnicks”, presente até em videoclipes da banda) e peculiaridades de cada integrante, de modo bastante fluente. Aquele caso de livro q a gente embala e dificilmente demora muito a concluir.

A quem já conhece a História da banda, pelos outros livros já lançados ou pelo documentário “End Of the Century”, fica o registro de haver poucas novidades. No entanto, por focar pontos de vista diversos, às vezes sobre um mesmo episódio – como o famigerado confinamento no estúdio de Phil Spector – “Na Estrada Com os Ramones” se torna mais interessante. Confirma a maioria dos casos, desmente pouquíssimos outros, acrescenta elementos diversos.

Traz, no final, a lista dos 2263 shows feitos, data por data, lugar por lugar. Conforme se diz q eram anotados em caderninho de e por Johnny Ramone, o ranheta supremo e déspota esclarecido. Traz tb fotos raras, algumas do próprio Monte, em suas peculiaridades de tour manager. Fotos de crachás e pôsteres de turnês – incluídas brasileiras – tb comparecem.

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Recomendo o livro, no mais, por 2 outros aspectos:

1) o de dissociar crueza punk de tosqueira. O som dos caras era básico, cru e primitivo. Mas ñ o equipamento e a infra-estrutura por detrás. O 1º empresário q tiveram ganhou o posto na condição de lhes adiantar $ para comprarem instrumentos, luzes e mesa de som. Além disso, desde muito cedo contratavam roadies e técnicos de som próprios. Nada de ficarem como burros de carga na estrada

2) o de mostrar os bastidores duma banda, e o q fazem algumas figuras até folclóricas (roadies, empresários, produtores), q se torna fundamental para uma banda vingar. Juntando com o item anterior, parece-me algo valioso em termos de Brasil, naquilo q vemos em tanta banda e falsa cena do “metal nacional”, q muito pouco apresenta em termos de estrutura ou profissionalismo.

E se está tratando de Ramones, lendários e únicos no ecossistema do rock’n’roll mundial. Goste-se ou desgoste-se. Banda q foi sucesso de crítica e de um público fiel, mas jamais no mainstream.

Por fim, pra esclarecimento: “‘Kiefer’, citado no depoimento de CJ Ramone, acima, era Kiefer Sutherland, ator hollywoodiano. E ‘Julia’, Julia Roberts, sua namorada na época e vadia de plantão (ahah). Se soar exagerado o causo, há uma foto no livro desse encontro…

Gabba gabba hey!

* os outros livros lidos sobre a banda: “Hey Ho Let’s Go – A História dos Ramones”, de Everett True (Editora Masdras); “Eu Dormi Com Joey Ramone”, de Mickey Leigh e Legs McNeil (Ed. Dublinense) [citado em posts por aqui]; “Commando”, de Johnny Ramone (Editora LeYa) [S.U.P. em mai/13]

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CATA PIOLHO CCXLI – old but gold: o riff em “Jerry Was A Race Car Driver”, do Primus, ñ guardaria notável semelhança com o de “Elephant Talk”, do King Crimson?

2 respostas

  1. marZ

    Confesso, envergonhado, que não comprei exatamente por causa da capa feia. Mas reverei meus conceitos.

  2. guilherme

    “2) o de mostrar os bastidores duma banda, e o q fazem algumas figuras até folclóricas (roadies, empresários, produtores), q se torna fundamental para uma banda vingar. Juntando com o item anterior, parece-me algo valioso em termos de Brasil, naquilo q vemos em tanta banda e falsa cena do “metal nacional”, q muito pouco apresenta em termos de estrutura ou profissionalismo.”

    *palmas*

    Já li um texto sobre uma banda de sucesso (cujo nome não me lembro agora, desculpe) que era muito legal, os caras tratavam muito bem toda a equipe deles (roadies, engenheiros, managers, etc), respeitavam muito todos e pagavam MUITO mais do que a média do mercado. Acontecia um efeito cascata, os bons queria trabalhar com eles, o que fazia com que a produção fosse melhor, que ajudava a banda crescer ainda mais.

    Boa parte dessa equipe acompanhou a banda por muito tempo e, se acontecia alguma troca, era só por indicação de alguém de dentro. É um ponto que eu não pensava muito até ler esse texto e é algo que me fez refletir muito sobre o que acontece aqui em alguns nichos.

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