“FODA-SE O LED ZEPPELIN”
Dorsal Atlântica – Sesc 24 de Maio, 11.07.25
por Leo Musumeci – texto e fotos (exceto setlist)
Era uma sexta-feira fria, show da Dorsal no teatro do SESC 24 de maio, localizado no centro da cidade, próximo à Galeria do Rock. Um local emblemático para o metal paulistano, com uma banda histórica para o metal nacional. Uma combinação perfeita para uma grande celebração do funeral do rock, que Carlos Lopes contínua e acertadamente enuncia.

Àqueles que se surpreenderam ao ler “teatro” e “Dorsal” na mesma frase, não se enganem: não é a primeira vez que a banda se apresenta em “palco italiano” (essa disposição usual de teatro que conhecemos).
Aliás, de um show da Dorsal espera-se tudo, e ainda se surpreende. Carlos, uma espécie de Antônio Conselheiro dos nossos tempos, avisa de saída a alguém que incautamente pede para que não se fale de política, que seria impossível, já que metade de si é política e a outra é espiritualidade. Essa conjunção empresta um caráter messiânico, no melhor sentido da palavra, ao show da Dorsal – ou, como o próprio Carlos chamou, à “procissão”, sempre dividida entre metal de ponta e comício rebelde.
A esse propósito, Txuca disse que ontem [resenha escrita sábado] teve menos comício e mais música.
A impressão dele é que, em parte, a guitarra de Carlos pareceu menos instável que outras vezes (menos microfonias, menos interrupções) e, em parte, que estavam mais a fim de tocar. A minha é de que esses fatores colaboraram, mas que não há show da Dorsal padrão. E que Carlos sempre fará um show para aquela noite, para aquele lugar e para aquelas pessoas. Ainda que haja um set, tenho a impressão de que ele é uma espécie de plano B, que só vai acontecer se tudo der errado, ou seja, se os espíritos zombeteiros (encarnados ou não) que habitam os rolês não participarem.

No mais, parece um pouco redundante descrever as tantas qualidades de um show da Dorsal, já tão dissecadas nesta casa com H. Ainda assim é preciso dizer: a Dorsal é foda. Carlos é foda. Sua banda é foda. E soam muito foda no palco.
Isso posto, falemos brevemente do espetáculo. Para além de mais músicas, Carlos trouxe uma inédita, que, segundo ele, nunca haviam tocado antes: “Fighting in Gangs”, do “Searching For the Light“, primeira Ópera thrash da história.
Para mim, indiscutivelmente a melhor do show. Não pela surpresa, porque como já disse, Dorsal é sempre surpreendente, mas pela mistura de técnica apurada, composição sofisticada e execução impecável. Tenho a impressão de que seria a escolha da galera que se aglomerava nas laterais do teatro (aqueles ainda com idade para não reclamar do joelho ou das costas no dia seguinte) que, empolgadíssimos, cantaram todas.

Eu me sintonizo muito com as músicas do “Pandemia“. O disco certo pra hora certa. Coragem, engajamento, com doses de erudição, pra exorcizar o burro que habitava o Planalto. Dele, vieram “Pandemia” e, justamente, “Burro”.
Não faltaram clássicos tb, como “Metal Desunido” e “Vitória”. E Carlos descendo a lenha em sua guitarra baiana (ainda que eu ache a distorção ótima para as notas mais agudas e um pouco suja demais para as graves, que não contam com o reforço dos Power Chords) com a cozinha de baixo e bateria muito atenta.

Entre as músicas, foi dia de “homenagens” a Donald Trump; de história da primeira vinda de Carlos a São Paulo, quando dormiu na frente da Baratos Afins esperando Luiz Calanca – que, por sinal, estava na primeira fila; de sua infância vivida na vizinhança carioca de Zuzu Angel e Rubens Paiva; de cobrar militares pela “Tortura” promovida, …
Enfim, uma celebração à altura do metal nacional que Carlos lutou a vida toda pra construir, mas que não é esse “metal nacional s./a.”. Muito bom ver um clássico em plena forma. E muito bom poder sair de lá, entre Zé Pilintras do centro com grandes camaradas encerrar a noite num outro clássico, o Estadão.
